Museu da Imigração em São Paulo

São Paulo: Museu Penitenciário Paulista e Museu da Imigração

São Paulo, maior cidade das Américas, é um prato cheio para quem gosta de visitar museus. Há aqueles mais famosos, que todos já ouviram falar, como o MASP, o Museu do Futebol e o Museu da Língua Portuguesa, que se encontra em restauração após o trágico incêndio de 2015. No entanto, havia 2 museus que estavam sob nossa mira há um certo tempo, mas que, por inúmeras razões, ainda não tínhamos podido visitá-los. São o Museu Penitenciário Paulista, mais conhecido como Museu do Carandiru, e o Museu da Imigração do Estado de São Paulo.

MUSEU PENITENCIÁRIO PAULISTA – MUSEU DO CARANDIRU

O Museu Penitenciário Paulista encontra-se no bairro Carandiru, à esquerda da entrada oeste do Parque da Juventude. Inaugurado em meados de 2014, tornou-se conhecido como Museu do Carandiru porque o parque onde está localizado abrigou o famoso Complexo Penitenciário do Carandiru até 2002, quando foi implodido.

Museu Penitenciário Paulista

Entrada do Museu Penitenciário Paulista, também chamado de Museu do Carandiru

O museu é bem pequeno, começando sua mostra com uma exposição de fotos de tatuagens feitas pelos próprios presidiários com o intuito de demonstrar o tipo de crime que cometeu, a gangue que pertenceu ou mesmo homenagear entes queridos ou divindades adoradas pelo detento. É possível ver as rústicas adaptações feitas com máquinas de cortar cabelo ou mesmo pedaços de arames transformados em máquinas de tatuar.

Ainda, nesta mesma ala, há uma série de gravuras que mostram de forma interessante a degradação de um pai de família que, entregue ao alcoolismo, leva sua família à miséria, entra no mundo do crime e não se recupera até a sua morte. Há também uma rápida explicação de como foi formada a ideia de pena de prisão, bem como sobre o aparecimento das teorias de Beccaria (pensador criador da obra intitulada “Dos Delitos e Das Penas”, base do direito penal atual) e Lombroso (pai da antropologia criminal).

Tatuagens dos presos no museu do carandiru

Painel com explicações sobre a história das penas

Nas próximas alas, há uma série de pinturas e obras de arte realizadas por detentos, além de instrumentos fabricados furtivamente para serem utilizados em fugas e/ou rebeliões, como “teresas” (cordas feitas de pano para fuga), “chuços” (armas brancas criadas a partir de peças de ferro), além de objetos, como livros e sapatos, apreendidos com visitantes que traziam drogas ou outros produtos proibidos.

Acervo do Museu Penitenciário Paulista

Na parte de cima: obras criadas por presos; à direita: chuços, armas brancas utilizadas por detentos; no centro: objetos onde se escondiam drogas e armas; à esquerda: cadeira esculpida por presos

Algo que me chamou a atenção foi um painel que trazia uma lista enorme de palavras originárias dos presídios que ultrapassaram os seus muros e hoje estão no vocabulário de boa parte da população, como “é nóis na fita”, “bagulho”, etc. Outro item interessante é um vídeo com a explicação de como os presos fazem a “maria louca” uma aguardente artesanal proveniente da fermentação de restos de alimentos consumidos no cárcere.

Dentro do museu penitenciário paulista

À esquerda: painel com vocabulário oriundo dos presídios, à direita: fabricação da “maria louca”, bebida consumida por presos

No fim, há uma cronologia da história das penitenciárias no Estado de São Paulo e 4 modelos de celas que podem ser visitados.

O que eu realmente estranhei foi o absoluto silêncio a respeito do massacre de 1992, quando 111 presos foram mortos por policiais em uma rebelião. Com exceção apenas de uma menção na cronologia, afirmando que, em 1992, por conta do motim, a Penitenciária do Carandiru se tornou mundialmente famosa, não há nada que indique o ocorrido. Ora, a palavra “Carandiru” só é de conhecimento de todos os brasileiros justamente por causa do massacre, antes disso, só mesmo os paulistanos sabiam a que se referia. Achei um absurdo o museu ignorar o massacre, pois fica parecendo que a política é mais importante – e terminou vencedora – que a história neste museu.

celas do museu do carandiru

Modelos de celas

A visita é rápida – no máximo uma hora de duração – e é gratuita. No dia que visitamos, um sábado, o museu foi “só nosso”, pois não havia mais ninguém por lá.

O museu é simples, não diria que pobre, mas um pouco fraco. No entanto, vale a visita.

Chegar lá é muito fácil, basta pegar o metrô e saltar na estação Carandiru. Não tem erro, pois uma das saídas da estação é justamente na entrada do Parque da Juventude, bastando atravessá-lo (é bem policiado), chegando ao museu. A entrada é gratuita.

MUSEU DA IMIGRAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Este é um museu que vale MUITO a visita!

Para quem não sabe, São Paulo é a cidade mais cosmopolita do Brasil e uma das maiores do mundo. A cidade, hoje a mais populosa do país, só ultrapassou o Rio de Janeiro, na década de 60, graças à grande massa de imigrantes que recebeu do mundo todo desde o fim do século XIX. O porto de Santos era o ponto inicial daqueles que vieram a formar a atual população do Estado de São Paulo, vindos da Europa (especialmente da Itália), Ásia (árabes, turcos, sírios e japoneses, em sua maioria) e África (principalmente da África subsaariana). Com o boom das exportações de café e o fim da escravidão com a Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel em 13/5/1888, houve um grande incentivo à imigração e ao “embraquecimento” da população, trazendo as principais levas de imigrantes da Europa.

No entanto, para facilitar a logística e manter um mínimo controle de quem chegava ao país, o Estado de São Paulo criou a Hospedaria para Imigrantes, no bairro da Mooca, que, após cadastramento, encaminhava os recém-chegados às fazendas cafeeiras que tinham interesse em seu trabalho. Justamente pensando nisso, essa hospedaria foi construída às margens da estrada de ferro, que levava os imigrantes ao interior do estado. No local, os imigrantes passavam entre 5 a 8 dias, onde recebiam alimentação, dispunham de abrigo, instalações sanitárias, etc. Era onde o Brasil começava para os estrangeiros, futuros brasileiros.

Museu da Imigração em São Paulo

Bela entrada do Museu da Imigração do Estado de São Paulo

Nos seus 91 anos de existência, mais de 2,5 milhões de pessoas passaram pela Hospedaria dos Imigrantes.

Em 1993, a Hospedaria dos Imigrantes foi transformada em museu, passando a se chamar Museu da Imigração do Estado de São Paulo.

O belíssimo prédio tem estilo clássico e abriga um acervo interessantíssimo, que conta a história do prédio e de seus hóspedes por décadas.  A visita começa com várias telas multimídias, que mostram as principais rotas migratórias do mundo no fim do século XIX e início do século XX, incluindo até São Paulo, já servindo para situar o visitante mais desinformado.

rotas migratórias do mundo

Mapa interativo mostrando os fluxos migratórios

A próxima sala contém uma enorme variedade de cartas enviadas entre os imigrantes e seus familiares nos países de origem, contando as alegrias, agruras e promessas de vida melhor nas terras tupiniquins. Essa mostra é seguida de uma série de TVs com vídeos que trazem personagens dessa história (desde ex-funcionários da hospedaria até imigrantes que chegaram ainda crianças) sendo entrevistados a respeito dos dias que passaram pelo prédio. Os relatos vão de coisas simples, como a estranheza com as refeições, que misturavam feijão e arroz, algo impensado para muitos, até as diferentes emoções que confundiam a cabeça dos recém chegados, como incerteza, expectativa, alegria e saudade. Foram pelo menos 30 minutos assistindo a esses vídeos, que, na minha opinião, são imperdíveis!

Cartas do museu da imigração

Setor de cartas enviadas pelos imigrantes no Brasil aos familiares distantes

Cartas do museu da imigração de São Paulo

Duas cartas em italiano do início do século passado

Há, ainda, uma exposição de objetos trazidos do exterior pelos imigrantes, como malas, vestuário, máquinas, entre outros, além de um setor só de beliches para demonstrar como era o local à época do seu funcionamento.

Acervo do Museu da Imigração de São Paulo

Objetos da Hospedaria dos Imigrantes e remanescentes trazidos pelos recém-chegados ao Brasil

Em um outro setor do museu, há uma exposição com os sobrenomes de famílias que vieram ao Brasil durante o fluxo migratório, além de vídeos demonstrando a vida dos colonos nas fazendas. Ainda, há um outro ponto com vídeos que informam como várias das cidades do Estado de São Paulo foram formadas e desenvolvidas a partir de um determinado povo, com influência ucraniana, húngara, libanesa, entre outros, fazendo de São Paulo uma verdadeira “Torre de Babel”.

Mural com sobrenomes vindos ao país e que fazem parte do povo brasileiro atualmente

No entanto, engana-se quem pensa que a hospedaria apenas recebeu estrangeiros. Uma grande quantidade de brasileiros, das mais diversas partes do país (mas principalmente nordestinos), também passou pelo local a fim de se estabelecer no estado, fugindo de situações de risco e da seca, que assolava o sertão nordestino.

Outro ponto interessante do museu é a mostra de como o Estado de São Paulo mantém a sua vocação à receptividade aos imigrantes até os tempos atuais: vários vídeos com entrevistas de moradores (a parte multimídia do museu é excelente), que chegaram ao estado nos últimos anos, das mais diversas partes dos planetas (Nigéria, Peru, Índia, Haiti, entre outros), contando como vieram ao Brasil, de que maneira se estabeleceram, relatando as dificuldades e os sucessos em suas empreitadas.

Particularmente, acho que a visita a esse museu deveria ser prioridade a todos aqueles que visitam São Paulo, especialmente para os que querem entender a formação do povo paulista e brasileiro. Recomendo que vá com tempo, pois a oportunidade de assistir aos vídeos é o ponto alto do museu. Ainda, o seu acervo ajuda a compreender por que o Brasil tem uma vocação especial para acolher tantas pessoas de culturas tão distintas. Digo mais: em tempos de intolerância, como o atual, é uma boa pedida ver como o “diferente” tem uma grande capacidade de agregar, construir e ajudar a fazer de uma cidade, estado ou mesmo país um lugar ainda mais rico e multicultural!

Jardim do Museu

Não perca a visita!

Para chegar lá, salte na Estação de metrô Bresser-Mooca na Praça Mário Piccoli. Desça à direita na Rua Ipanema. O museu está no final da rua Ofurô.

O Museu da Imigração funciona de terça a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos das 10h às 17h.

Gratuito aos sábados.

Endereço: Rua Visconde de Parnaíba, 1316, Mooca, São Paulo/SP.

Contato: (11) 2692-1866

Site: Museu da Imigração

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5 Comentários

  1. Esse museu é uma das coisas mais fantásticas e, claro, achei super legal o painel com as gírias carcerárias.

  2. Não sou muito fã de museus, mas esse da imigração me chamou a atenção e já coloquei na lista para quando for para São Paulo novamente. E sobre o Museu do Carandiru: não fazia ideia que termos como “é nóis na fita” e “bagulho” saíram de presídios. O post está ótimo. Parabéns!

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